Rosa era uma moça jovem e simpática que tinha sua beleza qualificada dentro dos parâmetros admirados naturalmente pela sociedade masculina. Dividia seu tempo entre o trabalho – o qual se dedicava com total vigor e empenho – e vida pessoal de forma um tanto injusta, o que não a fazia deixar de ser bonita e bem apessoada em momento algum.
Rosa tinha pele boa e viscosa e mesmo sem ter que dispor muito tempo e produtos de beleza com este quesito, preocupava-se de forma exagerada com espinhas. Não era uma mulher espinhenta, com o perdão dos mais injustiçados, mas qualquer sinal de protuberância crescendo em sua face era uma justificativa para unir polegar e indicador em uma causa única e civil para eliminar de ver aquele malfeitor que desejava retirar seus dias de glória.
Assim era Rosa. Uma mulher viciada em espelhos capazes de desvendar os mistérios existentes abaixo de sua derme mais profunda. Rosa não era uma mulher “epidérmica”, nem um pouco superficial. Ela sempre queria mais. Em sua juventude relatou ter uma amiga que, por conselhos oferecidos pela mãe, possivelmente herdados em testamento pela avó, espremer espinhas fazia mal. Isto causou tamanha desavença entre as duas que a amizade se esgotou. Rosa, quando em companhia da amiga acompanhada de uma espinha de lua avermelhada, gorda e recheada de pus amarelo-me-tire-daqui, não era capaz de fitar os olhos na amiga, muito menos prestar atenção em seus diálogos imaturos. Rosa tinha uma atração pela espinha da amiga e não conseguia observar qualquer outra coisa ao seu redor.
Rosa amadureceu atrapalhando que suas espinhas tivessem o mesmo fim. O vício quase lhe custou a vida, os amigos, o emprego. Rosa era capaz de forçar a vista e mirar is buracos mais profundos do rosto nos lugares mais inusitados e incabidos, com a presença das pessoas menos preparadas e aconselháveis. Banheiros comunitários, elevadores, portas espelhadas e até sanitários químicos de praças públicas tiveram a honra de conhecer Rosa.
Há alguns dias soube do falecimento de Rosa. Amigos dermatologicamente testados dizem que depois de uma semana de orgia alimentar no Costão do Sauípe, presente recebido pelo seu bom desempenho no trabalho, Rosa teve uma reação alérgica a toda gordura ingerida que atingiu todo seu corpo. Não sendo capaz de fitar-se no espelho e visualizar a aversão a si própria, a moça cortou os pulsos deixando apenas um bilhete: “Até mesmo as Rosas mais belas têm espinhos”.