O retiro do final de semana renovara seu espírito. Acordou mais cedo, com disposição invejável, deu bom dia a todos em sua casa (o que nunca fazia), e foi a pé ao trabalho. No caminho, recordava cada momento de intensa meditação e todas as palavras que ouvira. Sentia que tudo seria diferente daquele momento em diante. Havia paz inabalável em seu coração. Havia fé de que poderia fazer um mundo melhor, e começaria pelo mundo das coisas ao seu redor.
O bom humor era tanto que não se aborreceu com o motorista que quase o atropelou ao sair da garagem, nem com um cão vira-lata que abruptamente avançou sobre seu calcanhar. Manteve a serenidade que só uma alma renovada pode conduzir, quando chegou ao trabalho e deu de cara com a porta fechada. Não se importou com o olhar curioso do padeiro, que nunca o vira tão animado e falante. Conseguiu ser cordial até com o chefe, a quem nutria sentimentos menos amáveis, e que o recebeu com insultos pelo “atraso”.
- Não, eu não atrasei, é que…
- Cala a boca e começa a trabalhar.
Logo percebeu que o mundo “aqui fora” continuava o mesmo, mas ele não. Poderia ouvir a grosseria que fosse que estava bem consigo. Tinha amor para todos. Em especial para Clarisse, que sempre ligava na hora do almoço. Menos aquele dia.
A alegria da manhã se dissipou um pouco pela falta da namorada, sem contar a chuva que o pegou de surpresa na saída do banco, onde foi solicitar um empréstimo para sanar algumas dívidas. Mas ficou melhor ao perceber que reagiu com calma e resignação aos problemas. Decidiu que começaria a procurar um novo emprego ainda naquela semana, e talvez um curso profissionalizante. Havia esperança em seu coração.
Teve vontade de dizer um palavrão quando voltou ao trabalho e o chefe lhe prometeu descontar o dia pelo atraso de mais de meia hora. Segurou firme, lembrando-se de como queria agir bem com tudo e com todos. Aceitou o desconto sem explicar que passou mais de uma hora na fila para pagar uma conta da empresa.
Agradeceu quando se aproximou o final do expediente, mas isso antes de receber o telefonema de sua mãe, que pediu que ele fosse buscar sua irmã mais nova na escola.
- Mas eu não vim de carro, mãe.
- Vá a pé! Você está precisando andar mesmo, está muito gordinho.
Ele não estava com a menor paciência para buscar a irmã, e a palavra “gordinho” foi o último tiro no seu bom humor. Mas foi. Pegou a pequena, que tagarelava sem parar, e antes de ir para casa, resolveu passar a limpo o problema com a namorada. Foi à saída do trabalho dela. De longe, a viu no carro de um colega de trabalho, trocando gracejos. Havia rancor em seu coração.
Apesar da fúria, resolveu não agir. Voltou para casa, cabisbaixo, e ainda tendo que agüentar a pirralha tirando onda com o que vira.
Chegou em casa com muita fome, mas não havia nada na geladeira ou na despensa. Também não teve vontade de ir até a padaria. Sentou-se em frente à TV para ver o noticiário esportivo do fim de semana, já que ainda não sabia os resultados da rodada.
- Crise no Corinthians. Já são cinco jogos sem vencer, e….
Quebrou a TV, sentou e chorou. Havia raiva em seu coração.