.quotidien

By vanagwen

Havia preparado tudo. Faltava apenas a mala de viagem. Então abriu o armário e começou a escolher as roupas que levaria. pensou por um instante na forma que tratava aquele espaço onde tinha suas roupas guardadas. espaço das memórias. do olfato ao tato. cada peça dali tinha uma marca em sua existência. e cada uma levava para aquela viagem um album de fotografias cerebrais. lembrou que queria levar uma peça branca. não era ano novo. mas queria estar vestida de branco. também não desejava a paz. achava que o branco era sensual. gostaria de perceber seu corpo moreno em frente ao espelho com o destaque da peça branca. não sabia se era uma lingerie ou se levaria uma outra peça. percebeu que tinha ainda que comer antes de sair. antes de partir. Estamos indo e partindo o tempo todo, pensou. era assim que gostava de começar o dia. amanhecer na cama. ver o céu azul do lado de fora. mas ele não havia chegado. nem o céu azul. nem o sol. só o nimbus. assim que a professora havia ensinado. as nuvens em estado de nimbus. uma das poucas coisas que lhe ferviam a memória.

gostava de ficar na varanda. observar a rotina viva das pessoas. e seus guarda-chuvas coloridos na calçada. era preciso comer ainda. mas não havia nada para se comer. teria de sair e comprar algo no caminho. foi até a porta e colocou só um casaco por cima. esquecera que estava ainda imprópria para sair a rua. voltou pra varanda descalça e olhou os carros. uma cidade inteira em movimento. o mundo todo frenético dançando a música da vida. gostava de pensar coisas assim. queria muito escrever um livro. ter dons culinários melhores. não. por enquanto a vida havia escolhido outro caminho. a mala ainda estava relativamente vazia e o tempo passando. com os pés descalços na varanda. estava parada. olhando o nada. os pés? nem frios. nem quentes. estavam ali bobeando. brincando com o vento que batia. uma música de fundo bem baixinha estava tocando. mas não queria prestar atenção naquilo. estava só parada. olhando a chuva da varanda. os corpos quase molhados na calçada e a vida esvaindo.

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