Mais uma vez, você é convidado(a) a imaginar que sua cadeira é a poltrona de um teatro, a do Theatro Mondo Redondo. Pegue sua pipoca e o guaraná, pois a peça de hoje começa agora.
Cenário: O pátio do 2º Batalhão de Infantaria, em Nogueirópolis.
Personagens: O terceiro sargento Paulo Mozzambrão e o recruta Miguel Castro.
***
São duas horas da manhã e o recruta Castro dorme o sono dos justos: é a primeira noite após 6 meses sofrendo das mãos do sargento Mozzambrão que ele não se deita com o corpo todo dolorido por causa do duro treinamento, graças ao encontro que ele arranjara entre o seu superior e sua irmã, Heleninha. Eis que o sargento entra bufando pela porta do alojamento, puxando as cobertas de Castro.
SM: (gritando) Recruta Castro!!! (apitando no ouvido de Castro) Levante-se, seu monte de estrume preguiçoso!
RC: (pulando da cama) Sim, senhor, sargento Mozzambrão! Recruta Castro apresentando-se para o serviço! (esfregando os olhos e olhando para o relógio) Sargento… o senhor não acha que é um pouco cedo para a alvorada?
SM: (trincando os dentes) A alvorada é na hora que eu achar que deve ser, seu molengão de uma figa. (gritando) E eu também acho que é hora de você perder um pouco dessa barriga flácida. (apontando para o chão) Eu quero 50 abdominais agora.
RC: (fazendo abdominais) Sargento, o senhor estava de tão bom humor ontem… o encontro foi ruim?
SM: (olhando para o alto e suspirando) Pelo contrário, Castro: foi ótimo. As velas, o vinho, os olhos de Heleninha… (virando-se para Castro e apitando) e pare de enrolar e me dê 50 flexões.
RC: (virando-se para fazer as flexões) Eu não entendo, sargento: quando o senhor ficou sabendo que minha irmã aceitou o seu convite para jantar, ficou pisando em nuvens… estava tão sereno que nem ligou quando o cabo Souza atolou o jipe, nem quando o capitão Fraga disse para o senhor coordenar a equipe que vai limpar a fossa do quartel, muito menos quando o general Pereira da Silva disse que o senhor era um estrupício, na frente de toda tropa! Ontem, entrou no carro com a farda de gala, todo emproado e com um sorriso de orelha a orelha… e agora isso? (muito cansado) que aconteceu, sargento? Minha irmã lhe destratou?
SM: (andando ao redor de Castro e suspirando) De forma alguma. Heleninha é um anjo… um anjo de candura. (colocando as mãos no peito) Ah, o jeito de falar, a delicadeza de suas mãos, a maciez de sua pele morena… (ajoelhando-se e apitando no ouvido de Castro) e quem foi que mandou você ficar aí deitado, cavalgadura? Levante-se e pague 50 polichinelos.
RC: (exausto) O sargento que me desculpe, mas tem coisa estranha aí: minha irmã lhe tratou bem, o senhor adorou a minha irmã… (levantando a sobrancelha) o que aconteceu que o senhor está nervoso assim? Heleninha não quis saber de namoro?
SM: (suspirando) Ah, como ela quis… os beijos, os afagos, os abraços, nossos corpos nus se abraçando e… (cheio de ira) ela me mandou embora. Ela me dispensou!!!
RC: (transtornado) Ah, sargento… a minha irmã não é de botar os outros para correr assim, de graça, não! (visivelmente aborrecido) Aposto que o senhor foi grosso com ela! Aposto que o senhor foi duro com ela!
SM: (chorando copiosamente) Nenhum dos dois, nenhum do dois…
Cai o pano.